Redação: Equipe SEUBARCO

Resumo: Em 18 de setembro, a Torkmar informou que o DB1 completou uma passagem de 124 milhas (cerca de 200 km) pelo rio Tâmisa em cinco dias, sem gerador nem recarga em terra. O barco compacto de passeio diurno para águas interiores combina bateria de 5 kWh e painel solar de 756 W. O resultado documenta uma viagem específica em baixa velocidade — não uma autonomia solar universal para lanchas ou navegação costeira.

Uma travessia de cinco dias pelo Tâmisa

Um barco elétrico percorreu 124 milhas (cerca de 200 quilômetros) pelo rio Tâmisa sem usar gerador nem recarga em terra. A etapa do Torkmar DB1 entre Lechlade e Teddington, na Inglaterra, foi concluída em cinco dias e divulgada pela British Marine em 18 de setembro. O percurso incluiu trechos de baixa velocidade, eclusas com horário restrito e uma espera de mais de duas horas causada por detritos em uma comporta.

O que os dados da viagem mostram

O interesse do caso está também nos dados de uso divulgados pela British Marine, atribuídos ao registro da viagem da Torkmar. O DB1 combina motor elétrico direto de 1,5 kW, bateria de lítio de 5 kWh, hélice de 14 polegadas e conjunto solar de 756 W. Em navegação tranquila, o registro aponta demanda próxima de 0,25 kW a 3,5–3,8 mph. Ao acelerar para alcançar uma eclusa, a demanda subiu para 0,5–0,6 kW, com velocidade entre 4,2 e 4,8 mph. A entrada solar chegou a cerca de 350 W ao meio-dia. Esses valores descrevem condições específicas do percurso, não uma garantia de desempenho em qualquer barco ou clima.

A bateria iniciou a passagem com 100% de carga, chegou a 60% após a demora em Whitchurch Lock e terminou o quinto dia em 70%, segundo o registro divulgado. Em outro trecho, a British Marine relata que uma aceleração de 30 minutos a 0,6 kW perto de Culham Lock consumiu 6% da carga. A mesma publicação também associa 1,5 kWh ao primeiro dia e ao consumo total da passagem; sem uma definição clara dessa métrica, esse número não permite calcular o gasto agregado e não é usado aqui como medida de eficiência.

Os dados de carga ajudam a visualizar o efeito da velocidade, das esperas e da geração solar, mas não equivalem a um ensaio independente padronizado.

Velocidade, eclusas e operação real

O episódio da eclusa ajuda a entender por que os dados importam. A espera alterou o ritmo do dia e obrigou a tripulação a ajustar a navegação para seguir o horário de passagem. Ainda assim, o barco chegou ao fim do percurso sem recarga externa, de acordo com o relato.

A demonstração não ocorreu em condições abstratas de laboratório: envolveu correnteza, velocidade limitada, janelas de operação das eclusas e uma interrupção real.

Por que 200 km não significam autonomia universal

Mas “200 km sem tomada” não significa que qualquer barco elétrico possa navegar essa distância com painéis no teto. O DB1 é um dayboat — barco de passeio projetado para saídas diurnas — com cerca de 19 pés e meio, voltado a águas interiores e velocidades baixas. O resultado depende do formato e peso do casco, da resistência da água, da carga, do uso de equipamentos a bordo, da insolação e do perfil da rota. Mar aberto, ondas, corrente contra a embarcação e velocidades maiores podem elevar bastante a energia necessária.

O que a experiência pode ensinar ao barqueiro brasileiro

Para o proprietário brasileiro, a história mostra por que motor, bateria, painéis, casco e rotina de navegação precisam ser dimensionados como um sistema. O DB1 também tem uma solução de uso que vai além da propulsão: segundo a fabricante, o teto solar sobe para captar energia durante o percurso e pode ser baixado para fechar a embarcação quando ela fica atracada. Isso não significa que painéis possam substituir diretamente um motor de popa convencional; o resultado depende do projeto e das condições de uso, e a fonte não informa disponibilidade comercial do DB1 no Brasil.

O Brasil tem um exemplo de perfil diferente: um táxi-boat elétrico solar de Ilha Grande, convertido a partir de uma embarcação tradicional a diesel. Segundo a Revista Náutica, o serviço completou mil viagens em três meses e meio. Ali, o dado relevante é a repetição de uma operação diária; no Tâmisa, trata-se de uma travessia de cinco dias em condições específicas. Os casos mostram usos possíveis, mas não permitem comparar autonomia ou eficiência sem medições feitas sob critérios comuns.

A viagem também teve um detalhe prático: uma escotilha de acesso ao hélice permitiu retirar vegetação presa sem mergulhar, em menos de um minuto, segundo Tim Knox. Somados à espera de duas horas na eclusa e às mudanças de velocidade para cumprir horários, esses episódios mostram que o desempenho depende tanto da gestão de energia quanto da operação cotidiana do barco.

O DB1 oferece um caso documentado de navegação elétrica solar em águas interiores; seus números não devem ser convertidos em promessa universal de autonomia.

Fontes

Leia também: Motores elétricos no São Paulo Boat Show 2026: fabricantes, modelos e o que comparar

São aplicações diferentes; os dados do DB1 não devem ser tratados como autonomia típica de motores elétricos de popa.